A construção da Proximidade

A identificação destes comportamentos de Proximidade tem sido objecto de diversas pesquisas. Por exemplo Bickmore & Picard (2005) listam um conjunto de comportamentos que contribuem para a diminuição da distância psicológica e social:

- o aprofundamento recíproco da auto-revelação (“self-disclosure”) aumenta a confiança, a proximidade/intimidade, e a afinidade/atracção.

- o uso do humor, que constitui uma importante estratégia de manutenção da relação aumentando também a afinidade/atracção.

- o falar sobre o passado e sobre o futuro e fazer referência a um conhecimento partilhado.

- o assumir comportamentos de continuidade para fazer a ponte entre o tempo em que as pessoas estiveram separadas (cumprimentar e saudar adequadamente, dar as boas-vindas e falar sobre o tempo em que estiveram separados) são estratégias importantes para manter o sentido de persistência numa relação.


Por seu lado Nardi (2005), caracterizou os comportamentos de Conexão e dividiu-os em três tipos: afinidade, empenhamento e atenção. A afinidade é definida como os sentimentos de ligação e conexão entre as pessoas, um sentimento de abertura para a interacção com os outros. As actividades que promovem esta ligação social incluem: 1) tocar, 2) comer e beber, 3) partilhar experiências num espaço comum, 4) conversação informal. A segunda dimensão, o empenhamento, é definido como a expressão da vontade de participar em relações mútuas. O empenhamento denota o envolvimento numa comunicação continuada para projectos de mútuo interesse. A terceira dimensão da ligação/conexão envolve o capturar da atenção do outro o que inclui o contacto do olhar e a negociação da disponibilidade para conversar, interagir com o outro.

Nesta tipologias (como noutras que não introduziremos aqui) está presente a ideia de que os sujeitos procuram activamente formas de ligação social que ultrapassam largamente a mera leitura de pistas sociais contidas nos media. Essa ligação social não se confunde com a mera transmissão de informação e de conteúdo proposicional ou com a partilha de conhecimento comum. Para Nardi (op. cit.) actividades como tocar, comer, beber, partilhar experiências num espaço público, contacto do olhar, etc. têm um impacto pré-consciente, fisiológico e corpóreo, altamente relevante para a construção da ligação social e não são especificamente informacionais. Como afirma esta autora o trabalho da ligação é complementar ao trabalho sobre o conhecimento mútuo. Ambos necessitam de ser trabalhados continuamente, mas têm um padrão temporal distinto um do outro. O conhecimento comum diz respeito à informação partilhada enquanto que o trabalho de ligação é relacional. O conhecimento necessita de novas peças de informação para se ampliar linearmente ao longo do tempo. Mas a conexão mostra um padrão de decréscimo da sua intensidade e requer uma realimentação constante ([1]). Por outro o conhecimento mútuo, sendo mais reflexivo, pode acumular-se mais facilmente; A conexão sendo mais corpórea (dar um aperto de mão, tomar uma bebida, mostrar-se para um encontro) necessita que cada acção seja realizada fisicamente. O conhecimento proposicional pode ser inferido. Podemos inferir um determinado conhecimento mas não um aperto de mão. Para Nardi a transposição destas acções físicas para formas de conexão virtual constitui um problema chave na compreensão da comunicação mediatizada:

“Quando descobrimos o comer e o beber virtual, a invocação do espaço na comunicação mediatizada, ou os abraços online, vemos as pessoas a usarem as mesmas estratégias que já utilizavam face-a-face mas agora em contexto mediado. Embora isso possa mudar no futuro, até ao momento actual as pessoas aprenderam a comunicar através da interacção face-a-face, e depois, pelo menos no mundo moderno, começaram a aprender formas de comunicação mediatizada. O poder e a primazia da comunicação face-a-face constitui o modelo de pelo menos alguma parte daquilo que podemos observar em contexto mediatizado. Desconhecemos a natureza da transformação que leva da experiência corporal real à experiência corporal mediatizada (…) (Nardi, 2005, p.123).



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([1] ) É nesse sentido que Moscovici & Doise (1991), caracterizam o fenómeno da participação nos grupos humanos: “Por um lado, a participação suscita relações mais intensas, mais frequentes do que o normal. No quotidiano, quer no que toca aos cuidados familiares, quer às exigências de uma profissão, as relações dos indivíduos distendem-se e automatizam-se. Os contactos espaçam-se, a indiferença instala-se e a confiança desfaz-se. Basta renovar os contactos, procurar e multiplicar as trocas para que os laços voltem a ganhar vigor. As ideias e as crenças ampliam-se à medida que se comunicam. Niguém fica sem reagir e num só movimento as pessoas aproximam-se e estimulam-se. É o que se passa nos lugares públicos, cafés, bares e outros locais familiares em que se fazem e desfazem opiniões públicas. “(op. cit. p.63). Diriamos que se tratam de “zonas de comunicação” (Nardi, 2002), onde a conexão deve ser mantida” num estado de suficiente excitação ou activação para promover a comunicação efectiva em que os participantes podem trocar informações” (Nardi, 2005).