Distância e Distância Transaccional
“A distância de um estudante em relação ao seu professor não se mede em quilómetros ou em minutos” (Michael Moore)


A problemática da distância tem merecido grande atenção na literatura de educação a distância e do e-learning, em particular a partir da noção de Distância Transaccional de Michael Moore. Moore (1991) elaborou a noção de distância transaccional do seguinte modo:

“A transacção a que chamamos educação a distância ocorre entre indivíduos que são professores e aprendentes, num ambiente que tem como característica especial a separação entre um e outro e em consequência um conjunto especial de comportamentos de ensino e de aprendizagem. É esta separação física que leva a um intervalo (“gap”) psicológico e de comunicação, um espaço de potencial incompreensão entre os inputs do professor e os do aprendente, e isto constitui a distância transaccional” (Moore, 1991, pp.2).

Moore considera assim que a distância transaccional é um fenómeno de natureza psicológica e pedagógica e não tanto de natureza espacial ou geográfica. Assim, segundo o seu modelo, um curso será mais distante na medida em que possua, simultaneamente, um nível de interacção reduzido e um nível de estrutura elevado, enquanto um outro será menos distante, se possuir um nível de interacção elevado e um nível de estruturação reduzido: “a distância de um estudante em relação ao seu professor não se mede em quilómetros ou em minutos” (Moore, 1973, pp. 665). Deste modo, a educação a distância não se define, então, pela separação geográfica entre professor e estudante, mas pela quantidade e qualidade de interacção e pelo tipo de estrutura pedagógica presentes. A distância física entre professor e estudante seriam de facto menos relevantes para a definição da situação. Os sujeitos estarão, de facto, distantes se não existir diálogo (mesmo que se encontrem no mesmo espaço físico) e se o nível de estruturação do curso for muito elevado.
A mediação de tecnologias da interacção permite a ocorrência de um maior número e de uma maior diversidade de transacções quer entre professor e estudante, quer entre estudantes, promovendo a interacção e diminuindo a distância transaccional. A discussão e investigação em torno deste conceito tem implicações importantes para a educação online, apontando nomeadamente para o facto de a distância, sendo uma questão psicológica/pedagógica poder constituir uma variável a controlar quer através do design instrucional, quer através da presença pedagógica do professor; ou seja, os estudantes poderão sentir níveis de distância variáveis dependendo de como o ambiente de aprendizagem está estruturado.

Os estudos sobre a interacção a distância ganharam relevo a partir do trabalho de Fullford & Zhang (1993) (cf. Gunawardena & Zittle, 1998), quando concluíram que um dos factores preditores, considerado crítico e com impacto no grau de satisfação dos estudantes, era efectivamente a percepção geral que os estudantes tinham dos níveis de interacção. Os seus resultados sugerem que existe uma relação dinâmica entre aquilo que os estudantes percepcionam que se passa com eles e o que ocorre realmente, o que leva os autores a colocar a hipótese de que esta percepção da interacção global pode constituir um indicador de uma interacção vicariante. O que é interessante é que esta percepção não parece estar estritamente relacionada com os níveis de participação individual do estudante, já que “a dinâmica global da interacção parece ter um impacto maior na satisfação do aprendente do que a sua estrita participação pessoal” (p. 107).
A importância do “sentir-se ligado”, participante e conectado aos outros foi também sublinhada por Shin (2002; 2003). Esta autora introduziu o constructo da Presença Transaccional para teorizar a percepção dos estudantes a distância em relação aos outros significativos envolvidos na interacção a distância. Esta “presença transaccional” refere-se ao grau em que o estudante a distância percepciona a “disponibilidade para” e a “ligação com” as pessoas na interacção. “Disponibilidade” implica que o que é necessário ou desejável é obtido quando pedido, envolvendo por isso uma relação interpessoal com reciprocidade. “Ligação” indica a crença ou sentimento da existência de uma relação entre duas ou mais partes, envolvendo um julgamento subjectivo da extensão do envolvimento em relações com os outros.
A presença transaccional poderá assim constituir uma variável significativa da percepção dos estudantes relativamente à aprendizagem efectuada, ao grau de satisfação e à intenção de persistir no curso. Estes dados apontam para a necessidade de no desenho dos cursos a distância serem integrados diferentes tipos de presença transaccional diminuindo deste modo a probabilidade de os estudantes sentirem a distância psicológica: aumentar o nível de interacção entre os participantes constitui uma das estratégias para aumentar o nível de percepção da presença transaccional, não descurando que, ao aumentar-se o nível de interacção, isso irá interferir simultaneamente com o grau de autonomia do estudante sobre a sua possibilidade de escolher quando e onde aprender.