O Modelo da Comunicação Hiperpessoal

Os trabalhos de Joseph Walther mostram que há muitos exemplos em que os grupos baseados em comunicação electrónica (Grupos CMC) ultrapassam o nível de afectividade e emoção de grupos paralelos face-a-face. Walther denominou este fenómeno como “comunicação hiperpessoal”, isto é, comunicação que não é nem impessoal nem estritamente interpessoal e que se apresenta como “more socially desirable than we tend to experience in parallel FtF interaction” (1996, p.17).

A perspectiva hiperpessoal relaciona os processos psicológicos da comunicação relacional com os quatro elementos do esquema tradicional da comunicação: a) o receptor, b) o emissor, c) o canal e d) o feedback.

1) Em primeiro lugar, porque muitos dos sujeitos em interacção online partilham uma forma de identidade social, tenderão também a percepcionar uma maior similaridade entre eles próprios e o seu parceiro de conversação. Como nós tendemos a gostar daqueles de quem somos similares, as pessoas que estão em interacção online estarão predispostas a gostar dos seus parceiros de comunicação.

2) Em segundo lugar, os emissores de uma mensagem podem optimizar a sua auto-apresentação, isto é, podem apresentar-se a si próprios a uma luz mais positiva do que poderiam fazê-lo numa comunicação face-a-face, dado que não têm que se preocupar com o seu comportamento não-verbal. Estar liberto da exigência de alocar recursos mentais, escassos, no controlo das nossas pistas visuais e da nossa aparência, significa que podemos alocar mais recursos à construção da mensagem, de novo levando a uma impressão mais positiva que é transmitida ao receptor. Walther também sugere que estando livre das preocupações sobre a nossa aparência isso pode estar ligado a um aumento do foco sobre o nosso self interior. Isto significa que as mensagens enviadas em CMC incluiriam mais conteúdo sobre sentimentos e pensamentos pessoais, e que os emissores poderiam estar mais próximos dos seus ideais de self (o que de novo ajuda à sua auto-apresentação).

De acordo com o modelo, as percepções interpessoais numa comunicação hiperpessoal não são avaliações exactas, mas sim “exageros positivos”, idealizações, baseados em auto-apresentações selectivas pela pessoa alvo e em inferências “falaciosas” pelo sujeito que percepciona.

3) Um terceiro factor na comunicação interpessoal é o formato da CMC. Walther argumenta que a CMC assíncrona tem maior tendência a levar à interacção interpessoal porque:

1. Os comunicadores podem dedicar mais tempo à CMC, sendo menos distraídos por factores externos ao processo de comunicação.
2. Podem dispender mais tempo a compôr e a editar a mensagem.
3. Podem aliar mensagens sociais com mensagens de tarefa.
4. Não necessitam de utilizar recursos cognitivos para responder imediatamente, podendo assim dar maior atenção à mensagem (ou seja, não têm de estar preocupados com o feedback imediato ao interlocutor).

4) O quarto e último factor segundo Walther é uma espécie de feed-back loop que faz com que estes efeitos sejam amplificados através da interacção social: à medida que a interacção progride assim serão amplificadas as impressões positivas dado que os sujeitos da interacção procurarão confirmar as suas impressões iniciais e por seu turno procurarão responder às impressões positivas transmitidas pelos seus parceiros.

Em suma, o núcleo central dos pressupostos do modelo podem ser descritos sucintamente tal como o fez são descritos sucintamente por Utz (2000) :


“Em CMC, os utilizadores têm oportunidade para fazerem auto-apresentações selectivas. Têm tempo para pensarem como se apresentarem a si próprios e podem escolher os seus aspectos positivos. Por outro lado , na CMC as pistas sociais reduzidas levam a uma percepção idealizada pelos sujeitos que o percepcionam. Ele(a) tem apenas a informação positiva e inflaciona a impressão que constrói do outro, pela generalização dessas pistas positivas a outros aspectos desconhecidos da personalidade. A CMC pode portanto ser mais social e intima ou “hiperpessoal” quando comparada com a comunicação face-a-face.”